Cavando até a China

Mico na Serra da Cantareira

Ser jornalista é, talvez, uma das maiores alegrias em minha vida. Talvez por gostar tanto da profissão acabo me tornando um para-raios de situações inusitadas.

A mais engraçada de todas foi quando comecei a trabalhar em uma revista da divisão de insumos para construção civil de uma multinacional e minha chefe e eu fomos assistir a uma palestra de um renomado arquiteto argentino radicado na Inglaterra. Logo no começo das apresentações, que aconteciam em inglês, vi na fileira ao lado um homem sem o fone de ouvidos da transmissão simultânea e, ao lado dele, caído no chão um CD. Solícita – e doidinha para gastar meu inglês:

Excuse me sir, your CD is on the flour! “Com licença, senhor, seu CD está no chão”, em tradução livre.

Ele me olhou espantado e exclamou com um sotaque carioca:

Aê, obrigado! Mas, não é meu, não!

Minha chefe quase teve um infarto de tanto que ria. A minha sorte é que tenho um tom de pele que não deixa transparecer quando fico vermelha de vergonha. E se tivesse uma pá chegaria à China em pouquíssimo tempo. Mas, ainda não terminou!

A palestra também aconteceu inteira em inglês e a chefia teve a “brilhante ideia” de, logo no início, pedir para que eu entrevistasse um arquiteto e fizesse uma matéria sobre o assunto. Não, não tive vontade de cometer um assassinato com requintes de crueldade, imagina! Ordens são ordens e manda quem pode e obedece quem valoriza o emprego.

Lembro que meu cérebro fazia malabarismos porque ouvia em português, por conta da tradução, e buscava no meu vocabulário, que há muito não era usado, palavras para compor a entrevista… em inglês, óbvio (?).

Ao fim, me aproximei, me apresentei e começamos a conversar. Fiz dez perguntas que, por incrível que pareceu, foram bastante elogiadas pelo entrevistado. Bingo!

Finda a entrevista, agradeço a atenção e a disponibilidade, pergunto se, em caso de dúvidas poderia entrar em contato e, antes de me despedir definitivamente – vou relatar em português mesmo porque há séculos não escrevo em inglês, ok? –, ouço:

– Parabéns pelo seu inglês, você tem uma pronúncia muito boa, mas a entrevista poderia ter sido realizada em português tranquilamente. Sou argentino e entendo muito bem sua língua! Boa sorte com sua matéria!

Ele me deu um abraço, um beijo no rosto e se afastou. Fiquei com cara de caneca, de ué, de sei lá…

Minha chefe, que acompanhava a entrevista a uma distância razoável, soltou uma sonora gargalhada e quase enfartou novamente.

Percebi que este não era como o primeiro episódio da tarde. Ao invés de uma pá, uma retroescavadeira seria mais eficiente.

P.S.1: Todo mundo tem uma boa história para contar e conosco, da Memórias & Historias, não é diferente. Se você tem histórias para contar, que tal transformá-las em um livro? Nós, da Memórias & Histórias podemos ajudar.

P.S.2: A foto é em homenagem ao grande mico que minha amiga e sócia, Denise Aleluia, protagonizou. Ela foi tirada em Novembro de 2015 na casa dos meus queridos amigos Paulo e Sandra.

Se você gostou, não se esqueça de curtir e compartilhar!



Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *